quinta-feira, 23 de abril de 2009

coisas do passado

O M era um rapaz lindo, doce e, por acaso, louro. Ela... já não me lembro... mas caíra nas nossas boas graças. Ele militava num partido de esquerda. Ela chegara depois ao grupo, levada por ele. Envolvia-se menos. Ele era estudante universitário. Ela... já não me lembro.
Um dia descobrimos que ele era de uma família muito rica. Tão rica, que ameaçara pô-lo fora de casa, se não acabasse imediatamente o namoro com «aquela».
E ele saíu de casa.
Deixou de estudar e andava à procura de emprego. Nós tínhamos, de certa forma, «apadrinhado» aqueles romeu-e-julieta do século XX.

Era fim do dia. Estávamos no bar do Apolo70. Não sei porque carga de água estávamos lá, nesse fim de dia. O M também estava; a «julieta» não. Então, o L disse que podia arranjar um bom emprego ao M.
Animou-se o nosso amigo.
- Onde? Conta!
- Primeiro tens de dizer se queres!
- Mau! como é que vou saber se quero, se não sei o que é?
Se não foi assim que o M respondeu, foi parecido. Já não me lembro da conversa que se seguiu imediatamente, só me lembro que se precipitou da divertida estranheza para a receosa incredulidade. Só me lembro de, após muitas e diversificadas hipóteses que fomos atirando, ter balbuciado, em tom de quem desde já pede desculpa pelo disparate:
- Na PIDE?!
E lembro-me do silêncio que se fez. Lembro-me de como nos levantámos, quase sincronizados, à excepção do L, e nos dirigimos para a saída. Lembro-me de ainda o ter ouvido dizer:
- É pá, mas eu não entrego os amigos!
L. desapareceu. Só depois disto nos apercebemos de que ninguém sabia - nem nunca indagara - de onde lhe vinha o dinheiro para a mota que, já ao tempo, era uma bomba; para as rodadas que insistia em pagar; para as viagens que dizia fazer.
L. desapareceu e nós ficámos, não sei quanto tempo, à espera que nos aparecessem uns indivíduos soturnos a bater à porta, a invadir a casa, a despejar gavetas, a arrastar-nos, pelo breu da noite, para o fundo do silêncio... Pela minha parte, creio que os esperei até ao dia 25 de Abril...

Numa das minhas recentes idas a Lisboa, julguei ter visto L., no café que mais frequentávamos. Primeiro, reparei na criança que o acompanhava. Só depois dei com a familiaridade do rosto do adulto que lhe segurava a mão.
Desviei rapidamente o olhar, no receio de confirmar esse reconhecimento.
Creio que ele agradeceu.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  2. Prof.,

    os valores não se vendem, não se compram, nem tão pouco se emprestam.

    Fazem parte no seu conjunto do nosso mais valioso património: a dignidade.

    Eu também teria desviado o olhar :)

    Beijos

    ResponderEliminar
  3. Coisas do passado, sim, do tal que tanta gente já esqueceu e tanta gente não conheceu nem conhece, felizmente, nem quer saber dele, infelizmente...

    ResponderEliminar
  4. Arábica, apaguei um dos seus comentários porque estava repetido.
    Beijos

    ResponderEliminar

reservo-me o direito de não publicar comentários